A essência do cuidado

Hugo Negreiros

7/8/20252 min read

A Essência do Cuidado

A medicina, especialmente a oncologia, nos coloca diante de desafios profundos: tumores complexos, diagnósticos difíceis, decisões cirúrgicas delicadas. Mas em meio a protocolos, exames e bisturis, há algo que permanece como alicerce de tudo: o cuidado.

Cuidar não é apenas tratar. Não se limita a operar um tumor ou conduzir um tratamento adjuvante. Cuidar é estar inteiro diante do outro. É reconhecer que, por trás de cada prontuário, há alguém com medo, com uma história, com planos e, acima de tudo, com esperança.

A técnica como ponto de partida

A cirurgia oncológica exige precisão, atualização constante e comprometimento com a excelência. Trabalhamos com margens cirúrgicas, linfonodos, anatomopatológicos e protocolos rigorosos. E é essa base sólida que permite segurança no que fazemos.

Mas técnica, por si só, não basta. A ciência nos orienta, mas é a sensibilidade que nos guia no encontro com o paciente. Operar um corpo é simples, diante da tarefa maior: cuidar de um ser humano inteiro.

A escuta como ferramenta terapêutica

Aprendi que, na maior parte das vezes, o paciente não precisa apenas de uma resposta — ele precisa ser ouvido. E ouvir, genuinamente, é um ato de cuidado. A escuta atenta tem o poder de aliviar angústias, criar confiança e construir pontes que nenhuma cirurgia alcança.

Nosso olhar clínico deve ir além da imagem ou do exame. Deve alcançar o silêncio do paciente, a hesitação no olhar, a pergunta não dita.

Quando não se pode curar, ainda é possível cuidar

Nem todo caso oncológico é curável. E isso é algo que aprendemos com o tempo — não como uma derrota, mas como uma mudança de direção. Quando a cura já não é possível, o cuidado se torna ainda mais essencial. Aliviar a dor, proteger a dignidade, estar presente: isso também é medicina.

O cuidado paliativo, muitas vezes subestimado, é uma das formas mais nobres da prática médica. Ele nos reconecta com o que há de mais humano em nossa profissão: a compaixão.

O vínculo como instrumento de cura

O que permanece, após anos de prática, não são apenas os casos clínicos ou os procedimentos bem-sucedidos. São os vínculos. As mãos apertadas no pré-operatório, o olhar aliviado no pós-cirúrgico, a gratidão silenciosa de uma família.

A essência do cuidado está nessas entrelinhas. No que não é ensinado nos livros. Está em reconhecer que, mais do que salvar vidas, somos chamados a acompanhar existências — com respeito, empatia e verdade.